Trabalho de Conclusão de Curso de Formação em Terapia Relacional Sistêmica

 

Título: A Metamorfose do Terapeuta em Terapeuta Relacional Sistêmico

Autor: MARIA DE LOURDES SCHEIDT MÄDER

Curitiba

2002

 

Monografia apresentada à Professora e

Psicóloga Solange Maria Rosset

do Curso de Formação em Terapia

Relacional Sistêmica

 

I. INTRODUÇÃO

Ao falar em metamorfose pensa-se em mudança de estado, em transformação, em trocar a forma de agir. É justamente dessa passagem que trata esse trabalho. Ao longo do curso falou-se muito em novas formas e modelos de atender, no entanto, não é fácil mudar, mas é para isso que se está aqui. Afinal somos ou não somos terapeutas de mudança?

Este trabalho versa sobre a assimilação de uma nova postura terapêutica a partir de uma nova formação, de um novo conhecimento, da vivência profissional e pessoal. É portanto um relato de experiência. Ser um terapeuta relacional sistêmico não se restringe apenas em ser sistêmico na vida profissional, esses conceitos e vivências vão pouco a pouco se integrando à vida do profissional e este passa a ter uma postura sistêmica diante da vida.

 

II. DESENVOLVIMENTO

Seguindo esse pensamento que embasa a postura do terapeuta relacional sistêmico, observam-se alguns pontos importantes.

O terapeuta relacional sistêmico compartilha com o cliente a responsabilidade da busca de solução, enquanto em uma visão genérica de terapeuta, ele é depositário da expectativa de cura de seu paciente, do milagre da solução, da receita pronta. Neste aspecto já se tem uma diferença conceitual significativa, entre cliente e paciente. O primeiro é pessoa ativa no processo enquanto o segundo é passivo.

Para um terapeuta com postura sistêmica não existe verdade absoluta, o que existe é aquela pessoa diante daquela situação, naquele momento, não há certo ou errado, nem bom ou ruim, nem vítima ou algoz. O terapeuta trabalha com o que é palpável, obedece a regras básicas, não desqualifica qualquer crença, faz uso delas no processo terapêutico, está aberto para o novo. Propicia ao cliente conhecer seu próprio padrão de funcionamento, que é o jeito de ser de cada um, aquela forma como se apresenta e age e reage nas mais diversas ocasiões.

Quando houver dificuldade como terapeuta, este deverá olhar para seu próprio padrão de funcionamento e perceber se não é justamente aí que está a dificuldade.

O terapeuta relacional sistêmico auxilia seu cliente a realizar as mudanças necessárias que podem ocorrer naquele momento, como um leme na rota de um barco, uma vez que o leme sozinho não leva o barco a esta ou aquela direção, ele necessita também de um motor e de combustível, o leme apenas ajuda no direcionamento da embarcação. Este é um ponto importante para o terapeuta, perceber se o cliente está em condições ou não para essa mudança, se este é o momento, se é ecológico para ele ou não.

Ecológico é tudo aquilo que não interfere provocando um desequilíbrio em seu conteúdo pessoal, diante do qual o inconsciente sente-se à vontade para aceitar e incorporar esse novo comportamento ou conduta.

O terapeuta relacional sistêmico necessita cultivar e trabalhar com bom humor, que pode sempre aliviar tensões e tornar o trabalho terapêutico mais leve. O terapeuta deve ser capaz de ter empatia, tornando-o cuidadoso em sua ação.

Existem mitos profissionais a respeito dos primeiros "terapeutas/psicólogos" que foram os magos, os religiosos e os curandeiros, aqueles que sabiam tudo, resolviam tudo. Essas pessoas detinham a fama de serem boas e de prestarem seus serviços sem cobrar. Esses mitos profissionais impedem o bom desempenho do psicólogo, quando se faz necessário uma postura firme e um valor precisa ser cobrado pelo psicólogo pelos serviços prestados.

Além desses, existem os mitos familiares e os socialmente bem aceitos, como, ser sempre bonzinho, cordato e educado, isso é um empecilho para o terapeuta trabalhar com mudança, pois esse trabalho exige muitas vezes ser firme e determinado.

O terapeuta relacional sistêmico trabalha com duas verdades absolutas: a primeira que todo pedido do cliente é paradoxal, ele chega movido por um desejo aparente de mudar, mas apenas aparente, o terapeuta precisa ser paciente o suficiente para esperar o momento certo de agir, pois ao chegar o cliente traz consigo muitas certezas e habilmente o terapeuta necessita esperar a hora certa para fazer junto com seu cliente o que pode ser feito para aquele momento. E, a segunda verdade: todo processo é cíclico, portanto pode ter recaída. As recaídas são inevitáveis, desejáveis, administráveis e têm prevenção.

Esse processo é tanto do cliente quanto do terapeuta. Do terapeuta em perceber qual é o padrão do seu cliente e poder ser um facilitador desta compreensão e do cliente em compreender ou tomar consciência do próprio padrão de interação permitindo a realização das aprendizagens que são necessárias ou estão faltando neste momento e ainda propiciando ao cliente fazer as mudanças no padrão de interação do mesmo. A arte em ser terapeuta relacional sistêmico é adequar toda fala do cliente ao padrão de funcionamento do mesmo, percebendo o que é funcional para esse cliente naquele momento.

Todo esse trabalho deve ser regado de amor. "O amor é a base para toda a ação criativa, toca em toda área importante do ser e do tornar-se humano", afirma Gilligan, (2001, pg. 255). O terapeuta deve ser capaz de escutar com o coração e expressar toda a sua amorosidade no seu trabalho terapêutico, com isso ele acolhe seu cliente e suas questões por mais difíceis que sejam com a compaixão necessária, onde o terapeuta é capaz de se deixar tocar pela experiência de dor do cliente, sendo este compartilhar um dos fundamentos do relacionamento terapêutico.

Ao receber um cliente o terapeuta relacional sistêmico presta atenção em quem o encaminhou para o atendimento, como este chegou, com que expectativas, nesse momento o terapeuta precisa ser humilde e ter compaixão com este ser humano que está em sua frente e com a problemática que ele trás.

No livro Don Juan de Marco fica explícito que de uma forma pouco convencional um terapeuta pode entrar em contato real com seu cliente, favorecendo uma interação entre ambos, percorrendo o caminho dos corações, compactuando com as emoções, permitindo-se agir de forma diferente e ambos, terapeuta e cliente, saírem do processo modificados. Essa reflexão remete a outra, que existe um sofrimento, dito como eficaz, que Gilligan define como: "é aceito como uma forma significativa de aumentar o amor por si e pelos outros...(que) aumenta a capacidade de recuperação e superação, a flexibilidade e a responsividade a muitos desafios da vida", (pg.41).
"Sem amor somos pássaros de asas quebradas", (Albom,1998). Sem se esquecer que no processo terapêutico a linguagem técnica e formal precisa de uma dose constante de amor, compreensão e disponibilidade para alcançar um trabalho de efeito, capaz de promover mudanças.

Ao falar em mudanças, pode-se citar Milton Erickson que conta uma anedota sobre um cavalo que desembesta e vai parar em um curral de um sítio desconhecido, lá ficando preso. O homem que o viu passar desembestado foi até o curral e montando com seus arreios o conduziu em direção à estrada, deixando que o animal tomasse o rumo que desejasse, sabendo com isso, que possibilitaria ao mesmo encontrar seu dono. O papel do terapeuta é colocar o cliente em seu caminho, pois os recursos para

udar estão dentro de cada um e as mudanças acontecerão na medida do possível de cada um.
Erickson contribuiu com o pensamento sistêmico incorporando o novo em todo processo terapêutico, abominando programas prontos, onde um estímulo leva sempre a uma reação esperada. Na visão de Erickson, um estímulo poderá ter muitas e diversas respostas, tudo depende do momento, do como, das condições, portanto, o terapeuta sistêmico precisa estar preparado para o novo que se apresenta.

Carl Whitaker diz que o terapeuta sistêmico precisa ser firme, porém, com suavidade e o controle da sessão deve estar sempre nas mãos do terapeuta.

Dentro deste pensamento o terapeuta precisa ter em mente que um caminho é apenas um caminho, a qualquer momento pode e deve ser mudado se o terapeuta sente que poderá haver outro, no qual novas e mais adequadas possibilidades existem, Fisch (pg.187). O terapeuta relacional sistêmico sem culpa, com clareza e responsabilidade volta atrás retomando a questão que pareceu inadequada e a transforma em estratégia, para tanto, precisa ser hábil e rápido em suas decisões.

Essa habilidade e rapidez também estão presente na redefinição da questão trazida pelo cliente. Redefinição é transformar a questão ou queixa em trabalho/ação. É transformar algo inviável em algo possível de ser trabalhado, é direcionar para o que aquele cliente precisa aprender, auxilia o cliente na tomada de consciência, facilita a aprendizagem e conseqüente mudança que se faça necessária. A redefinição dá ao terapeuta liberdade de ir e vir e retomar a questão. O terapeuta precisa ser criativo na redefinição, além de hábil o suficiente para ficar fora para perceber o que precisa ser trabalhado e dentro para trabalhar junto com seu cliente. A boa redefinição abre portas para bons objetivos.

Na terapia relacional sistêmica são os objetivos a serem alcançados que determinam quais as tarefas a serem propostas. Portanto, o terapeuta trabalha com tarefas reais e concretas como meio de modificar percepções, condutas e talvez alcançar a compreensão da causa raiz da questão. Neste aspecto são úteis as induções hipnóticas "como se" descritas por Fisch (pg.157).

Todo processo terapêutico com suas tarefas e tentativas de alcançar seus objetivos e mudanças visa restabelecer a saúde ao sistema. O conceito de saúde, para o modelo sistêmico, relaciona-se com a busca do equilíbrio, que deve ser equilíbrio dinâmico, pois é um processo e como tal está sempre em renovação. Fritjof CAPRA, (1982, p.317) em seu livro "O Ponto de Mutação", define saúde como: "... estar em sincronia consigo mesmo, física e mentalmente, e também com o mundo circundante". Segundo este autor, a doença deriva de um desequilíbrio do organismo, causado pela falta de integração das esferas física, psíquica e social.

Para Salvador Minuchin (1995) "O grau de saúde da família é determinado pelo grau de funcionalidade de um sistema familiar". Ser funcional é ser adequado ao contexto, espaço e tempo, pois a disfuncionalidade produz enrijecimento, estagnação e paralisação do sistema.

Em uma visão ainda mais atualizada entende-se o ser humano saudável como aquele que está em equilíbrio dinâmico, físico, emocional, psicológico, social e espiritual.

A forma de inter-relação entre terapeuta e sistema é a comunicação. O terapeuta relacional sistêmico necessita ter em mente as formas de comunicação humana propostas por Watzlawick, Beavin e Jackson no livro "Pragmática da Comunicação Humana" (1967). Ter essas informações como uma ferramenta de trabalho, auxilia o terapeuta a ter em suas mãos as rédeas do processo, facilita a compreensão da comunicação explícita ou não de seu cliente, possibilita a metacomunicação que é relacional.

No processo relacional o terapeuta sistêmico não precisa entender "o porque" das questões e sim ajudar a saber "o pra que" e o "como" tendo como preocupação "a forma", sempre focado na mudança.

Além deste foco, o terapeuta relacional sistêmico deve ter em mente a incontestável contribuição de Carl Gustav Jung para a psicologia dos conceitos de "anima" e "animus": "anima significa o componente feminino numa personalidade de homem, e o animus, o componente masculino numa personalidade de mulher" (Sanford,1986, pg.12). Sanford cita Hyemeyohsts Storm, um índio americano que afirma uma antiga crença indígena que "dentro de todo homem existe o reflexo de uma mulher, e dentro de cada mulher há o reflexo de um homem". Para um terapeuta relacional sistêmico esses conceitos precisam estar presentes, pois a anima e o animus estão presentes quando a psique manifesta-se de forma espontânea, assim como, em sonhos, nos mitos, nos contos de fadas, sendo assim, a anima o animus são os parceiros invisíveis de todos os relacionamentos.

Não bastando essas informações, o terapeuta relacional sistêmico necessita ter clareza das leis, regras e estratégias que todo sistema possui. Um sistema saudável possui poucas leis (aquilo que é/imutável), várias regras (aquilo que "tem que" /mais ou menos mutáveis) e muitas estratégias (aquilo que "pode" /mais consciente).

O terapeuta precisa ter em mente: as leis definem a existência do sistema, se mexer o sistema desaparece; as regras estruturam o sistema, se romper vai desestruturar o sistema; e as estratégias flexibilizam a existência de um sistema, significando o que pode ou não acontecer, as estratégias organizam o sistema. Diante disso o terapeuta sabe que ele "pode" mexer nas estratégias, que "não deve" mexer nas regras, onde a situação "tem que" ser assim, se mexer ocorrerá uma modificação fundamental no sistema, e por fim, em leis alheias "não se mexe", onde "tudo é assim", pois existe uma verdade absoluta no sistema que o define, se alterar as leis o sistema tem risco de cindir-se. Portanto, o terapeuta se atém em acrescentar mais estratégias, tornando o sistema mais saudável permitindo mudanças no funcionamento e organização do mesmo.

A postura de um psicólogo relacional sistêmico é diferenciada pelo seu interesse em reescrever com seu cliente uma nova história, ajudando-o a saber "o como", o "pra que" e o "quando". O terapeuta relacional sistêmico não se fixa nos problemas, nas dificuldades, mas sim nas novas soluções, nas mudanças e presta atenção nas dificuldades que podem se tornar problemas.

Outros aspectos importantes para o terapeuta relacional sistêmico são: pensamento circular em detrimento ao linear; trabalhar no padrão de relação do cliente e seu próprio; preocupar-se com a forma e não com o conteúdo; também precisa estar atento às palavras e/ou conceitos não sistêmicos, tais como: nunca, sempre, luto, estímulo-resposta, doença-cura, pessoa com dificuldade, no entanto deve fazer uso das palavras e/ou conceitos sistêmicas: neste momento, perda, sintoma-circunstancial, pra que, responsável, funcional-disfuncional, circular, forma, famílias com dificuldades.

Durante o processo terapêutico, o terapeuta relacional sistêmico pode fazer uso de sessões programadas, tendo a preocupação com: logística que vai dizer "onde" se vai trabalhar, em que terreno; estratégia "o que" se vai fazer; tática "como" se vai fazer; e técnica "quais instrumentos" serão utilizados. Esses quatro itens servem para dar um direcionamento ao trabalho, auxiliando o profissional em suas decisões, no entanto, não cristalizando sua ação somente àquilo que está programado, mantendo a flexibilidade para alterar o percurso se a situação assim o exigir.

Também pode fazer uso de ideal, rito e mito. Os ideais são os objetivos e metas que todo sistema possui. Ele pode ou não ser atingido, modificado ou não, ou ainda deixar de ser funcional e passar a ser um rito. Os rituais são atos simbólicos repetitivos que necessitam de tempo e espaço especiais, possuindo uma metáfora orientadora permitindo fazer uma ligação do inconsciente ao consciente, e ainda trabalhar paradoxos e emoções fortes. Se os ritos tiverem circunstâncias que permitam serem trabalhados eles podem possibilitar a tomada de consciência e recriar ideais. Se isso não acontecer pode pela ação da repetição passar para outra geração como um mito. O mito é inconsciente e surge com um determinismo mítico que define "o que" e "como" é. O terapeuta faz uso também de tarefas que tem alguns objetivos: vincular, abrir possibilidades, conhecer melhor o sistema, passar o tempo e para que a sessão se estenda durante a semana ou quinzena. Necessita saber "pra que" pede esta ou aquela tarefa.

Todo trabalho dentro da visão relacional sistêmica tem objetivo de mudança e toda mudança tem risco, preço e custo.

 

III. CONCLUSÃO

Em meio a inúmeros outros temas de igual importância, estudados, analisados e vivenciados durante o Curso de Terapia Relacional Sistêmica, concluo o trabalho, sabendo que apenas os tópicos, que mais se destacaram em minha formação, foram aqui abordados.

No livro "Ponto de Mutação", Fritjop Capra discorre sobre o momento onde o velho começa a perder sua força e o novo ainda não tem força suficiente para agir sozinho, este é o exato momento de crescimento, o ponto de mutação.

Com essa reflexão, concluo questionando.

Qual será o ponto de mutação, da metamorfose interior do ser em ser terapeuta, de uma nova postura como terapeuta relacional sistêmico?

Lembrando que se está em constante transformação, adicionando novos conhecimentos e novas posturas a cada momento deste processo infinito de ser.

 

IV. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALBOM, Mitch. A Última Grande Lição. Rio de Janeiro: GMT,1998.

FISCH, R, J.H.Weakland y L. Segal. La Táctica Del Cambio- Cómo abreviar la Terapia. Barcelona: Editorial Herder S.A., 1984.

FOLEY, Vincent. Introdução à Terapia Familiar. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990.

PRADO, Luiz Carlos. O Ser Terapeuta. Porto Alegre: Gráfica UFRGS.

ROBLES, Tereza. Concerto para Quatro Cérebros: em Psicoterapia. Belo Horizonte: Editorial Diamante, 2001.

SANFORD, John A. Os Parceiros Invisíveis: o masculino e o feminino dentro de cada um de nós. 5ª ed. São Paulo: Paulus, 1986.

SOUZA, Anna Maria Nunes de. A Família e Seu Espaço: uma proposta de terapia familiar. Rio de Janeiro: Agir, 1985.

WATZLAWICK, Paul; BEAVIN, Janet Helmick; JACKSON, Don D. Pragmática da Comunicação Humana. Um estudo dos padrões, patologias e paradoxos da interação. São Paulo: Cultrix Ltda, 1967.

WHITE, Jean Blake. Don Juan de Marco. Rio de Janeiro: Record,1995.