Trabalho de Conclusão de Curso de Formação em Terapia Relacional Sistêmica

 

Título: Contos e Histórias como Instrumento Terapêutico

Autor: Psic. Elenise Fernandes Xavier

Curitiba

Maio/2005

 

INTRODUÇÃO

 

Pretendo escrever sobre contos e histórias como instrumento terapêutico porque ao utiliza-los no consultório percebo que os clientes ampliam seu repertório interno, aprendem a flexibilizar, identificando com os personagens, criticando e nomeando o inominável.

Criam-se condições para que o cliente descubra aquilo que necessita aprender.

CONTOS E HISTÓRIAS COMO INSTRUMENTO TERAPÊUTICO

Os contos e as histórias são um instrumento terapêutico importante pois; alem de ser um suporte imaginário e simbólico servem também como meio de aproximação entre cliente e terapeuta, na medida em que são um suporte imaginário e simbólico e também na medida em que atuam como meio de aproximação.

Nas sociedades mais primitivas, que não possuem escola formal nem consultório para tratamento físicos e psicológicos nos modelos que estamos acostumados, o conhecimento era transmitido através da palavra.

Começamos então a conhecer o mundo a partir do momento em que ele passa a ser “contado”. Isto acontece quando o primeiro homem recebe o dom da palavra e utiliza-o para trocar suas experiências e suas descobertas. A primeira grande descoberta que se contou foi a do fogo. Ela foi contata, porque o fogo não precisou ser redescoberto a cada nova geração. E assim ocorreu com cada uma das experiências significativas, desde a aurora da humanidade, onde o homem, fazendo sua caminhada, vai trocando experiências com seus iguais no seio da comunidade.

As profissões instituídas como educador e terapeuta não existiam. O contador de história exercia esses papéis. Ele entretinha, revelava as concepções do mundo, crenças, valores e normas sociais de condutas esperadas dos indivíduos desse grupo, por meio de contos, fábulas, anedotas, parábolas, provérbios, histórias de encantamento e de ensinamento.

Já nas sociedades modernas aonde o psicoterapeuta ocupa uma função oficial de favorecer a “cura emocional” de seus clientes os contos e histórias podem ser utilizadas em qualquer tipo de psicoterapia, e em qualquer fase do processo: diagnóstico, intervenção ou finalização. Pode-se recorrer a um conto ou história “do arquivo” universal das diversas tradições e culturas ou cria-se um conto para cada cliente em particular, utilizando elementos da própria história do cliente e introduzindo outros condizentes com suas metas terapêuticas.

Alguns terapeutas ainda utilizam o recurso de contar histórias do cotidiano e exemplos de acontecimentos em geral, tendo sempre embutidas as alternativas de soluções encontradas para resolver seus impasses, dilemas e desafios.

Contos e histórias nos treinam a sermos mais flexíveis e nos oferecem maneiras novas de vermos as coisas, estimulando a fantasia e a criatividade, levando o ouvinte a se identificar com algum personagem e a crer que suas dificuldades e seus problemas poderão ser solucionados satisfatoriamente, transmitindo esperança, confiança e otimismo. É através de compartilhar nossas Histórias que o processo terapêutico acontece.

Um dos efeitos mais terapêutico dos contos e histórias é propor um suporte que permita encontrar situações emocionais que são as suas próprias, mas sobre um outro ângulo. Entre o contador e o ouvinte há uma transposição de um objeto que permite ao indivíduo controlar melhor suas emoções; elas facilitam nas pessoas a absorção de idéias em que os moldes comuns de pensamento a impedem de digerir.

As histórias nos dão senso de identidade, definem nosso lugar no mundo. Sem elas nos achamos à deriva, não sabemos mais quem somos, nem nos sentimos reconhecidos pelos outros, nos sentimos isolados, porque as histórias não apenas refletem quem somos como indivíduo, mas também nos proporcionam vislumbres nos calidoscópio de mudanças da vida da família humana. Ajudam também a compreender nosso lugar na comunidade humana e na comunidade natural. É uma conexão com as nossas raízes, com o lugar de onde viemos. Através das dos contos e das histórias, podemos entender nossas vidas.

Vivemos imersos em histórias. Os meios de comunicação nos fornecem uma dieta diária de informação.Os amigos e colegas de trabalho nos contam como foram seus fins de semanas, e os pais pontuam os dias de seus filhos contando-lhes histórias ou contos para dormir. Os avós se lembram de histórias de família, quando esta se reúne e muitos de nós passamos várias horas agradáveis mergulhados nas histórias de detetive, de amor, de comédia... Algumas nos divertem, informam, ensinam ou nos tocam, profundamente. Elas nos transformam e nos aproximam uns dos outros. Através delas podemos esclarecer um assunto considerando-se a estrutura da memória. É mais fácil lembrar da estrutura de um conto do que da situação real.

Contos e histórias podem ter o papel de afugentar dúvidas e medos, além de nos ajudar a entender o mundo e nos dar um senso de pertinência e significado. Elas também proporcionam um elemento de participação numa situação sobre a qual o cliente geralmente tem pouco controle porque o contar exige uma atitude ativa do ouvinte.

Podemos usar os contos e histórias para rechear a memória das pessoas, dando vida às simples idéias. Ao apresentar uma história sobre alguém, com o problema semelhante ao seu, e que utilizou certa solução com êxito, cria-se possibilidades do cliente ampliar suas alternativas; “se você quer que uma pessoa fale sobre sua mãe, tudo que você precisa fazer é contar-lhe uma história sobre sua própria mãe”. O terapeuta apenas cria o clima à ambiência para a possibilidade de se trabalhar as questões.

O conto é o relato e a representação da formação de processos da realidade psíquica como toda criação, mais que tudo, ele é próximo do sonho por seus conteúdos e por seus processos. Ele é diferente do sonho porque organiza em um relato estruturado das fantasias e suas transformações. As histórias que nos contam são um pouco da nossa própria história que redescobrimos e recriamos.

O conto jamais é denominador. Não impõe soluções, mas mostra evoluções possíveis. Por outro lado, o conto transcende as aparências e não se limita jamais a uma única realidade deste mundo, que é no fundo muita estreita e corresponde simplesmente àquilo que se pode agarrar com os nossos sentidos, nossa faculdade de compreensão limitada. Quem sabe finalmente o que é realidade?

O modelo proposto pelo conto é universalmente reconhecido como tendo seus fundamentos na sabedoria popular, transmitida oralmente desde a noite dos tempos. O ponto central do conto, da história e da terapia, é a palavra que pode produzir narrativas que constroem ou que destroem, que libertam ou que oprimem. Resgatam e curam o que foi danificado na psique, o que passou despercebido na estrada da vida ou simplesmente desgastado pelo modo de se viver.

Podemos dizer que o conto repete sobre outro plano e por outros meios, o cenário iniciático exemplar. O conto retoma e continua a iniciação no nível do imaginário (...) Na psique profunda os cenários iniciáticos conservam sua solenidade e continuam a transmitir sua mensagem e a operar mudanças.

 

CONCLUSÃO

A apresentação ao “Mundo dos Contos e Histórias” ocorreu por indicação da Psicóloga Solange Rosset e considero um valioso instrumento, dentro dos muitos ensinados no Curso de Formação de Terapia Relacional Sistêmica, por ser uma ferramenta que utilizo quando sinto a necessidade de suavizar o contato do cliente com seu padrão de funcionamento e com os dados de realidade.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CARAM, C; MATOS, G. Caderno de Contos . Editora Grupo Passarela, Belo Horizonte, 2001, 1 a Edição.

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CASTILHO, A . Como atirar vacas no precipício . Editora Panda Books, São Paulo, 2004, 7 a Edição.

FRANZ, M-L V. O feminino nos contos de fadas . Editora Vozes Ltda, RJ, 1995, 1 a Edição.

GALLEHUGH, S e A. Contos de fadas para adultos . Editora Best Seller, São Paulo, 2003, 1 a Edição