Trabalho de Conclusão de Curso de Formação em Terapia Relacional Sistêmica
Título: ORIENTAÇÃO VOCACIONAL E PROFISSIONAL RELACIONAL SISTÊMICA (OVPRS)
Autor: PSICÓLOGA RAFAELA SENFF RIBEIRO
A orientação vocacional e profissional está cada vez mais procurada pelas pessoas, pois a cada ano se torna mais difícil escolher, e criam-se mais opções de cursos e modalidades (dois anos, três anos). E por inúmeras outras razões, os indivíduos buscam o processo de OVP para poder escolher uma profissão. Também é freqüente as pessoas que já se graduaram em algum curso buscarem o processo de OVP para reorganizar a sua carreira profissional, chamando esse processo de re-orientação vocacional.
O mercado de trabalho está muito exigente e as pessoas não querem "errar" escolhendo essa ou aquela profissão, pois almejam uma realização profissional. Existem pessoas que acabam optando por determinada profissão que está na moda, e há espaço no mercado; porém, esquecem de que só atuarão como profissional capacitado de 4 a 5 anos após o período de escolha. Com isso gera-se insatisfação pessoal, profissional e demais problemas.
Orientação vocacional e profissional é o processo no qual a pessoa é auxiliada a assumir a situação que está passando, enfrentá-la e ao compreendê-la tomar a sua decisão (Bohoslavsky,1998). Cabe ao psicoterapeuta auxiliá-lo nessa escolha para a tomada de decisão de acordo com o funcionamento e aprendizagens necessárias do cliente em questão.
HISTÓRICO
O fato de algumas pessoas terem mais habilidades para executar um trabalho do que outras vem desde a antigüidade, quando Cícero escreveu sobre os diferentes talentos para diferentes trabalhos e diferentes adequações das pessoas a várias ocupações. Após o Renascimento, a Reforma e o Iluminismo, veio a democracia na sociedade industrial na qual o indivíduo tinha uma relativa liberdade para poder escolher a sua ocupação. Diz-se que o primeiro centro de orientação profissional foi criado na Baviera, em Munique, no ano de 1902; logo após foi criado na Itália em 1903, na França em 1906, na Holanda em 1907, nos Estados Unidos, Inglaterra e Suíça em 1908.
Segundo SUPER (Soares,1987), a orientação vocacional foi introduzida no mundo moderno por Frank Parsons, de Boston U.S.A e na Europa por A.G. Christiaens, de Bruxelas. Com a Primeira Guerra houve o desenvolvimento de testes que eram utilizados no exército cuja finalidade era a melhor utilização do homem em tarefas mais adequadas a ele. Esses testes passaram a ser utilizados, na década de 20 e 30, em ocupações civis de vários tipos. Na década de 30, devido ao desemprego, homens viram-se forçados a examinarem as suas aptidões e chances ocupacionais, que eram muito limitadas.
A Segunda Guerra trouxe vários problemas referentes ao homem no trabalho, tanto dentro do exército como fora dele, fazendo com que houvesse uma necessidade de máximo rendimento. No começo da Segunda Guerra, o psicólogo Carl Rogers sugeriu que fosse utilizada a abordagem não-diretiva e centralizada no indivíduo, o que fez com que o lugar dos testes fosse reconsiderado e modificado, sendo que estes não desempenhavam o papel de instrumentos de prognóstico e diagnóstico, mas como uma ferramenta a mais no trabalho.
Entre 1920 e 1930 foi grande, na Áustria, a influência da psicanálise na teoria e prática da orientação educacional, já a partir de 1940 intensificou-se a influência de Carl Rogers na orientação profissional e educacional. Myra e Lopez afirma que Frayer é o responsável pelo posicionamento da orientação profissional como um campo psicológico de pesquisa e atuação.
Brasil e Argentina foram, na América Latina, os pioneiros em orientação profissional. Em 1925 foi fundado o Instituto de orientação Profissional do Museu Social Argentino, na Argentina, dirigido por Fingermann. No Brasil, em 1924, Roberto Mange introduziu a seleção e a orientação profissional para alunos do Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo. A orientação profissional junto à seleção profissional surgiu como disciplina do currículo do Curso de Psicologia em 1962. Em 1931 surgiu pela primeira vez em nível universitário a disciplina de Psicologia Aplicada aos Problemas de Educação destinada à formação de professores secundários ou de escolas normais. No Instituto de Educação, no Rio de Janeiro em 1952, foram instituídos cursos de especialização para diretores e orientadores de ensino e serviço de Testes e Medidas Escolares. Desde 1979 as publicações sobre orientação profissional têm sido poucas frente a importância que tem no Brasil sendo que algumas faculdades oferecem o serviço de orientação vocacional profissional anexo ao curso de Psicologia. Em 1933, houve a criação do EDUCAT - Instituto de Parceria Educação e Trabalho e é realizado o I Simpósio Brasileiro de Orientação Vocacional/Ocupacional em Porto Alegre, no qual foi fundada a ABOP - Associação Brasileira de Orientadores Profissionais.
ORIENTAÇÃO VOCACIONAL: COMO? QUANDO?O QUE FAZ?
Existem duas modalidade de orientação vocacional: a modalidade estatística e a modalidade clínica. A primeira modalidade está mais ligada a tentativa de ajustar o jovem em algo que seja de acordo com suas aptidões e interesses, sendo o teste um instrumento fundamental para se conhecer essas aptidões e interesses (Angelini e LIP). Já a modalidade clínica implica em um processo de uma decisão pessoal e responsável. O cliente será auxiliado a assumir a situação a qual está passando, enfrentá-la e ao compreende-la tomar a sua decisão. O instrumento mais precioso nesta modalidade é a primeira entrevista na qual se condensará o ver, o atuar e o pensar psicologicamente, a avaliação do padrão de funcionamento e o nível de pertinência do cliente. Neste trabalho será abordado somente a modalidade clínica.
A escolha profissional do jovem ocorre, mais ou menos, com 15 -20 anos, época em que está passando por crises e angústias próprias de sua idade e que só tornam o processo ainda mais complicado. E as pessoas que buscam o processo de re-orientação, a idade média é entre 28 a 30 anos.
A escolha profissional pode e deve ser entendida como um processo e não um evento isolado na vida do indivíduo. Dentro deste processo, a pessoa fará suas escolhas menores e escolhas maiores que a levará a uma direção ocupacional que acarretará na sua escolha profissional. Este processo é o ponto principal na orientação profissional.O fato é que não se irá ajudar a fazer uma escolha, mas ser-se-á um guia de desenvolvimento para uma profissão. Aqui se inclui a avaliação, a informação, as aprendizagens necessárias, assim como o planejamento e a avaliação de várias ramificações, as quais têm os seus pontos de bifurcação. Na orientação vocacional, o cliente irá avaliar e terá as experiências básicas para tomar uma decisão prudente em cada uma destas bifurcações. É importante lembrar que não são apenas os fatores psicológicos ou sócio-econômicos que serão levados em consideração, mas sim todos os fatores que estarão influenciando nesta escolha.
Quando o jovem procura uma orientação profissional, está implicitamente buscando algo: sua felicidade. Isto porque associam uma escolha adequada, com a possibilidade de, futuramente, serem felizes. Trabalho e felicidade andam, culturalmente, de mãos dadas. Além da felicidade, parecem buscar em uma profissão a segurança tão almejada, levando a pessoa a questionar aspectos de sua vida pessoal, aproveitando essa experiência para outros setores de sua vida, como a vida afetiva, familiar e a vida em grupo.
Juntamente com a escolha do indivíduo, está implícita a escolha de toda uma família que, muitas vezes, desde cedo incita aquele a fazer o que lhe foi imposto. A escolha e pressão podem iniciar desde a infância, onde muitas vezes o jovem faz uma opção sem pensar em suas preferências, o que gera uma insatisfação, com a escolha "imposta". Por mais que o processo de escolha seja individual, a família é uma referência positiva ou negativa, mas fundamental para a vida.
A escolha profissional implica uma dimensão temporal, que precisa ser integrada e percebida pelo cliente, pois escolher o que quer ser no futuro implica reconhecer o que fomos. É importante que de alguma forma o cliente integre essa temporalidade, pois o momento da escolha é um presente que irá definir um futuro a partir das referências passadas que a pessoa tem. Esta questão fica ainda mais complicada para o jovem, devido ao período pelo qual está passando, onde seu único referencial de eu é o seu "eu fui" que está em fase de transição.
ORIENTAÇÃO VOCACIONAL PROFISSIONAL RELACIONAL SISTÊMICA
A terapia relacional sistêmica "é uma proposta terapêutica de trabalho com as pessoas, as relações e os sistemas humanos, onde através de um processo Individual, de Casal/Família ou de Grupo, se foca a consciência, as aprendizagens e as mudanças necessárias nos padrões de funcionamento e de interação".
Partindo de uma visão sistêmica, não existe uma causa que desencadeia um fato, existe uma infinidade de causas que desencadeiam situações e assim sucessivamente. O olhar eficaz para determinada situação é o de enxergar o "o que", "o como" algo está acontecendo, tendo uma visão ampla para não ficar preso no sintoma; buscando alternativas de funcionamento e mudanças para conseguir atingir seus objetivos na vida. Avaliando as dificuldades, tomando consciência do padrão de funcionamento, comportamentos a serem aprendidos e responsabilizando-se pelo processo.
A OVP Relacional Sistêmica (OVPRS) tem um foco diferente da modalidade clínica já usada por Boholavsky. O processo OVPRS corresponde a 10 sessões/ encontros divididos da seguinte maneira: 1 encontro para primeira entrevista, para expor a proposta de trabalho ao cliente e redefinir a situação;6 encontros para trabalhar o auto-conhecimento; 2 encontros para trabalhar o perfil das profissões (o que estuda, disciplinas curriculares, características pessoais necessárias) e 1 encontro para o fechamento. A quantidade de encontros dependerá do envolvimento de cada cliente, da maturidade, vontade de aprender e responsabilidade. Os encontros são semanais, com duração de 50 minutos.
Na primeira entrevista são colhidos dados de história de vida,contexto familiar, profissões de interesse, e é avaliado qual o padrão de funcionamento do cliente, o que impede-o de escolher e o que precisa aprender para escolher, com o foco na mudança. Inicialmente o objetivo é trabalhar o auto-conhecimento (para que possa identificar fatores que influenciam na sua escolha) e posteriormente as informações sobre as profissões existentes no mercado de trabalho. Na atividade de auto-conhecimento é trabalhado o próprio funcionamento do cliente, como ele é, como ele age em algumas situações, como funciona frente a um problema, o que gosta de fazer, suas habilidades, preferências, sua rotina, seus hábitos e, principalmente, o que precisa mudar. Essa é a diferença da OVPRS, o foco não é limitado na escolha.
Utiliza-se o genetograma com ênfase nas profissões e a linha da vida. Através do genetograma é possível avaliar as expectativas da família frente à escolha profissional do cliente e colher dados. O mundo familiar pode levar a pessoa a escolher um destino que não é aquele que deseja; a necessidade de sentir-se amado pela família pode levar a tais escolhas, sendo comum se deparar com essa situação nos processos.
No segundo encontro o cliente faz um desenho de si próprio, no qual, ao final de cada encontro, escreverá percepções, tomadas de consciência, aprendizagens que teve durante cada encontro e algumas mudanças que irão ocorrer durante o processo; e irá eliminando profissões inicialmente escolhidas.
É possível ver o cliente que busca a OVP como outro cliente, com outra queixa; a queixa inicial seria "não conseguir escolher uma profissão", sendo vital para o processo responsabilizar-se pelo seu processo. O pedido embutido seria que o terapeuta diga a ele qual seria a profissão ideal; redefine-se a queixa com o que ele precisa aprender para poder escolher; trabalha-se isso com diálogos e técnicas e uma sessão de encerramento após concluir a escolha profissional.
TÉCNICAS DO PROCESSO DE OVP RELACIONAL SISTÊMICA
Algumas técnicas podem ser utilizadas no processo de orientação vocacional, o uso dessas dependerá da necessidade do orientador de um apoio e da demanda do cliente em questão, são elas:
*Conhecimento do nome : visa conhecer um pouco da história pessoal do cliente, a partir do comentário do próprio nome. Dessa forma, deve falar sobre seu nome: como foi escolhido, por quem, que significado tem, se gosta ou não dele, como as outras pessoas reagem a ele, qual o apelido, acontecimentos significativos em relação a ele, etc.
* Frases para completar: constitui-se de uma folha com várias frases para completar, por exemplo: " eu sempre gostei de..., me sinto bem quando..., meus pais gostariam que eu..., me imagino daqui cinco anos fazendo...,não consigo me ver fazendo..., prefiro ... a ...; comecei a pensar no futuro..., escolher sempre me fez..., minha capacidade..., o mais importante na vida...,tenho mais habilidade para... do que...,acho que poderei ser feliz se...,uma pessoa que admiro muito é... por..."; e outras frases que estejam ligadas com a questão do cliente podem ser criadas, perfazendo um total de 25 a 30 frases para não se tornar cansativo.
*Genetograma: família de origem e extensa, explorando as profissões e como foi a escolha das pessoas mais próximas ao cliente; avaliando o padrão de funcionamento e outras questões levantadas.
*Levantamento de expectativas : tem o intuito de conhecer as expectativas do cliente em relação ao processo de orientação profissional. O procedimento consiste em comentar o que espera da O.V.P. ; por que procurou ; o que pensa que vai acontecer nos encontros; comentando a responsabilidade da decisão; etc.
*Interesses: tem como objetivo conhecer e sistematizar os interesses dos jovens, desmistificando o poder do teste e valorizando a decisão pessoal. É solicitado que os jovens relacionem as atividades que mais gostam de realizar e as que menos gostam.
*Informação profissional: visa perceber as características e interesses pessoais associados a atividades do cotidiano. Lista-se todas as atividades que gosta ou não de fazer e, posteriormente, comenta as atividades listadas, bem como os sentimentos despertados na sua realização.
*Gráfico da vida profissional ou linha da vida : tenta-se retomar aspectos importantes da vida passada do cliente. Visa resgatar o passado e tentar projetá-lo no futuro para poder decidir-se no presente. Este objetivo é atingido através de um gráfico, onde os indivíduos colocarão as idades mais importantes, as brincadeiras, profissões que conheceram em cada fase de suas vidas, desde o nascimento, infância, adolescência, momento atual e, como se imaginam daqui a dez anos profissionalmente.
*Autobiografia : o intuito é aprofundar o conhecimento mútuo e de si mesmo. Em um primeiro momento redigirá uma autobiografia a partir do tema "por que estou aqui, agora". Posteriormente haverá a apresentação da redação, tecendo comentários.
*Vestibular : Os jovens devem vivenciar a ansiedade frente à situação do vestibular como teste, experimentando as expectativas e os temores. Faz-se um role-play da situação do vestibular e, posteriormente, demonstrar seus sentimentos em relação ao vestibular.
*Gosto e faço: pode ser feito na sessão ou como tarefa, é uma folha sulfite que é dividida em quatro partes com as seguintes denominações: gosto e faço; não gosto e faço; gosto e não faço ; não gosto e não faço; onde o cliente preencherá com as mais diversas coisas que faz ou que deixa de fazer.
*Autobiografia (futuro): o objetivo desta técnica é auxiliar o cliente a pensar na integração corporal do seu eu, projetando-se no futuro e efetuando planos para alcançá-lo. Para isso devem escrever uma redação visando responder: Quem sou eu? Eu sou... (profissão escolhida).
CONCLUSÃO
Quando iniciei minha formação em Terapia Relacional Sistêmica, eu estava no último ano do Curso de Psicologia e um dos meus estágios curriculares era a modalidade de OVP. Conforme aprendia no curso de formação, aplicava na prática. E desenvolver a OVPRS foi mais fácil para mim, pois além de ser um laboratório, eu tinha uma outra visão para a modalidade, e os resultados eram muito mais gratificantes. Quando se inicia um processo de OVP não necessariamente você finaliza-o com uma escolha profissional. Já na OVPRS, a escolha se torna uma conseqüência do processo. Há três anos realizo Orientação Vocacional e Profissional e sempre tive a oportunidade de conseguir fechar o processo.
O processo de orientação vocacional e profissional relacional sistêmica apresenta vantagens frente às outras modalidades, pois o cliente percebe e toma consciência de uma parte do seu funcionamento, faz novas mudanças e aprendizagens no decorrer do processo, e em paralelo a sua escolha profissional. Com a visão relacional sistêmica , o processo torna-se mais eficaz e eficiente, pois é muito mais profundo. Não trabalha-se apenas a relação cliente-profissão e sim o cliente e todos os seus subsistemas e relações, como a teoria propõe.
A OVPRS é vista como um estímulo, motivação ao estudo e à busca das metas pessoais na vida. Mesmo sendo um processo mais lento, comparando-se com as testagens, e por mais que as pessoas que buscam o processo apresentem um nível de ansiedade elevado e querem uma resposta rápida, acabam optando pelo processo de OVPRS devido à forma e como são trabalhado as questões.
Para o mercado de trabalho é extremamente vantajoso ter pessoas que gostam do que fazem e trabalham por prazer, porque souberam escolher a profissão de acordo com o seu funcionamento, e não só buscam status, poder, dinheiro.
IV. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BOHOSLAVSKY,R.. Orientação vocacional . São Paulo: Martins Fontes,1998.
CARTER,B.;MCGOLDRICK,M.. As mudanças no ciclo vital familiar . Porto Alegre: Artes Médicas,1995.
CIVITA,R.(org). Guia do estudante e o melhor caminho: vestibular 2003.São Paulo:Editora Abril,2003.
LASSANCE, M.C.P. (org). Técnicas para o trabalho de orientação profissional em grupos . Porto Alegre: Editora Universal- UFRGS, 1999.
ROSSET,R.M.. Pais e filhos: uma relação delicada. Curitiba,Pr:Ed. Sol,2003
SOARES,D. H. P.. O jovem e a escolha profissional . Porto Alegre: Mercado Aberto,1987.
WEBER,A. M.. Orientação Vocacional. Você tem vocação para o trabalho que faz? Você S. A. .São Paulo; pg.44 a 48, dezembro,1998.