Trabalho de Conclusão de Curso de Formação em Terapia Relacional Sistêmica

 

Título: TOMAR CONSCIÊNCIA PARA TOMAR PROVIDÊNCIA

 

Autor: Psic. Odete Maria Gomes dos Santos

2004

 

1 Padrão de Funcionamento da personalidade anoréxica

 

Vamos usar o termo anoréxica por ser uma linguagem usual dentro da medicina psiquiátrica e por ser tratado como uma patologia. Além disso, por tratar-se de uma doença essencialmente feminina.

Geralmente o excesso de peso não é real, mas sim imaginário. É por essa razão que as anoréxicas lutam de maneira compulsiva e obsessivamente na perda de peso que é realizado através da auto-indução. Esta indução ocorre por diversas razões, pois a anoréxica é tomada de um desejo desenfreável de emagrecer de forma impulsiva, é um descontrole sem fim. E esse desejo ao emagrecimento é tão repetitivo que a pessoa se torna inflexível, rígida, teimosa e obstinada nessa busca da perda de peso, característica fundamental da imagem perfeita de um corpo exigido pelo marketing da sociedade atual. Há nas anoréxicas um desejo intenso de se libertar da materialidade do corpo, lavando-as a idealizar a perfeição do corpo enquanto idéia, reforçado mais uma vez pelo marketing que a beleza e o sucesso das pessoas está na forma de um corpo perfeito.

Uma grande preocupação de praxe das anoréxicas são as atividades (comportamentos) compulsivos como: dietas esdrúxulas, uso de laxantes, diuréticos, moderadores de apetite, enemas, atividades físicas excessivas, as quais não consegue controlar.

Esses comportamentos compulsivos são praticados (exercidos) para diminuir desconforto, ansiedade ou tensão decorrentes das obsessões, mas sem conexão com a realidade das experiências sensoriais. Não podemos esquecer que muitas vezes o excesso de atividades físicas está diretamente ligado as exigências do nosso cotidiano. Muitas vezes as rotinas levam ao estresse, a depressão, a conflitos psicológicos-existênciais, problemas digestivos e gástricos, esquizofrenias e infelicidade completa.

Portanto, o pensamento da anoréxica é falho, distorcido e doentio e se caracteriza por uma obsessão pela perfeição do corpo.

Uma outra razão para indução da perda de peso pode ser justificada através de uma separação ou perda, desequilíbrio familiar novas demandas no contexto ou uma doença física prévia.

Além do exposto, cabe-nos agora traçar outras características da anoréxica, perfil, seu modo de ser e existir no mundo e com o mundo, consigo mesma e com os outros.

Quando olharmos de maneira mais lato o padrão de comportamento anoréxico, percebe-se nitidamente que há um medo intenso em ganhar um pouco mais de peso, mesmo estando muito abaixo do peso mínimo. Há, acima de tudo, um julgamento errado de sua imagem corporal : o sentimento de que o peso, o tamanho ou a forma corporal está maior do que é na realidade, caracterizando uma imagem corporal distorcida. Geralmente essa imagem distorcida do corpo tem como conseqüência imediata o vazio do próprio corpo e da vida. Ou ainda “a recusa dos anoréxicos em relação à comida significa uma negação do corpo de todas as suas exigências. O ideal exclusivo das pessoas determinadas a ficarem magras é algo que ultrapassa o âmbito da alimentação. Seu objetivo é a pureza e a espiritualização. Elas querem se livrar de tudo o que for denso e material ”.

Também se constata nitidamente nesses clientes a ausência do desejo (desejar) é uma constante no comportamento e perfil da anoréxica. É uma vida sem desejos, pois o desejo é visto como elemento do corpo, e, portanto, requer materialidade e experiências sensoriais. Na medida em que a anoréxica permitir a existência do desejo no sentido lato, é necessário que ela se desarme diante da sua própria imagem de corpo e diante da própria morte. Em tese a vida é o elemento primordial que estimula a nossa existência, mas para a anoréxica é a morte. Nada é tão estimulante como a negação do corpo e a atração da morte. A única coisa que não causa medo na anoréxica é o fim da vida corporal trazido pela morte. O peso da existência é o corpo, não o fim e a limitação humana, Ou dito de outra forma “ não sentem a morte como uma ameaça, visto que é a vida que lhes infunde tanto medo. As pessoas que sofrem de anorexia nervosa sentem medo de tudo o que é redondo, amorfo, feminino, fecundo, impulsivo e que tenha conotação sexual; também têm medo da proximidade e do calor humanos ”.

Além de não desejar, há um sentimento de culpa muito grande diante do consumo de quantidades ínfimas de alimentos por parte da anoréxica. Tudo parece ser exageradamente “grande” e “muitíssimo” no sentido quantitativo.

Dentro do perfil da anoréxica está muito presente a hiperatividade e exercícios físicos em excesso. Os exercícios físicos trazem um certo conforto psicológico, pois dá a sensação a anoréxica de uma vitória sobre as suas gorduras, mas por outro lado, há uma compulsividade descontrolada em relação às práticas de exercícios físicos.

Todos os excessos cometidos pelas anoréxicas têm conseqüências graves, e muitas vezes, irreversivos e fatais, tais como: Físicos – lanugo ( pêlos finos que recobrem a pele do rosto e de outras partes do corpo), pele seca, intolerância ao frio, queda de cabelo, olhos fundos, bradicardia ( coração bate mais lentamente), hipotensão (pressão baixa), edema ( inchaço), perda da menstruação , fraqueza física; Emocionais - irritabilidade, mudanças no humor, tristeza, insônia, reservada, introvertida, depressiva, insegura, e por vezes, tentativas de suicídio quando a doença estiver em estágio avançado. Cardiológicas - arritmias, insuficiência cardíaca congestiva, parada cardíaca; Hematológicas – anemia, leucopenia (diminuição da defesa do organismo a infecções), problemas de coagulação; Gastrintestinais – motilidade gástrica lentificada, pancreatite, alterações de enzimas do fígado, alterações da função renal; Diabete insípido – (perda da função do rim em reter líquidos com grande perda de água); Endócrinas – hipotireoidismo, amenorréia (falta de menstruação), osteoporose (rarefação e fraqueza óssea).

•  São de uma personalidade detalhista e perfeccionista.

•  Dependente da mãe e pai ausente. A cliente anoréxica mistura-se com a mãe. Existe um excesso de proteção. As famílias das anoréxicas transmitem à filha a seguinte mensagem: o mundo é ruim e família é essencialmente boa. As meninas em especial precisam ser protegidas dos perigos do mundo e devem ser sobrecarregadas dentro de casa até o limite máximo de suas forças. Dentro dessa dinâmica de funcionamento familiar algo merece ser destacado referente aos anoréxicos: “ Eles anseiam secretamente por simpatia e a obtêm por meio da doença. Quem se recusa a comer, consegue de repente um grande e inesperado poder sobre as pessoas pois estas, sentindo um medo desesperado, acham que têm de obrigar o paciente a comer e forçá-lo a sobreviver. Com esse truque até criancinhas conseguem dominar suas famílias ”.

•  Dentro da dinâmica da anorexia, podemos encontrar dois tipos de pessoas anoréxicas - as anoréxicas tipo restritivo – estas apenas fazem uso de dietas severas e as anoréxicas bulímicas – estas se envolvem em comportamentos de comer compulsivamente seguido de purgação (auto indução do vômito ou uso indevido de laxantes, diuréticos ou enemas).

•  As pessoas com anorexia bulímica, além de serem mais gordas antes do início do transtorno, também foram obesas no passado e na maioria das vezes pertencem a famílias com história de obesidade. Um outro fator típico dessas pacientes é a facilidade que elas têm para induzir vômito e usar laxantes em suas tentativas de controlar o peso. Elas costumam ser mais vulneráveis ao uso de bebidas alcoólicas e ao uso abusivo de drogas, práticas com furtos, tentativas de automutilação e suicídio do que as anoréxicas tipo restritivo. São mais ativas na descarga de seus impulsos, enquanto as anoréxicas restritivas têm comportamentos mais inibidos.

•  Normalmente a pessoa com anorexia nervosa elimina primeiro os alimentos mais ricos em calorias, depois, paulatinamente vai retirando a grande maioria dos outros alimentos, sempre justificando que eles “engordam”, “não são saudáveis” ou simplesmente negando o gosto pelos mesmos. Quando a doença já está instalada, a pessoa alimenta-se com uma dieta de pouquíssimas calorias, torna-se hiperativa, fazendo atividades físicas ou envolve-se em rituais obsessivos infindáveis como freqüentes consultas ao espelho, e quando purgativas, abusos de laxantes, diuréticos, cafeína e vômitos auto-induzidos, sempre com o objetivo de atingir a magreza idealizada.

•  Para evitar a ingestão de alimentos, escondem comida nos armários, banheiro, dentro de roupas, bolsas, sapatos, para posteriormente se desfazerem da mesma, sem que os outros percebam. Mostram-se indiferentes ao seu péssimo estado nutricional, negando sua doença e hostilizando recomendações de amigos e familiares. Em tese cria uma estrutura complexa em torno de si mesma, utilizando-se de uma linguagem utilitarista e conveniente. Tornam-se, “aparentemente” auto suficientes, pois nada é tão verdadeiro e certo do que as suas próprias verdades e comportamentos. E na medida que alguém se aproxima na tentativa de ajudar e entender o problema, ele é considerado um intrometido e controlador, principalmente quando se trata do pai ou da mãe.

•  É importante observar que a desnutrição e as alterações neuroendócrinas podem ocasionar diversos sintomas adicionais, como perda pelo interesse sexual, pele seca, amarelada e recoberta por uma pelugem, unhas e cabelos quebradiços, sede excessiva, tonturas,, cefaléias, letargias, entre outros. Grande maioria desses sintomas desaparece ou diminuem à medida que os hábitos alimentares se normalizem. Outras recuperações podem ser seguidas por recaídas ou transição para bulimia nervosa.

•  Numa avaliação mais pormenorizada pode-se observar que o padrão cognitivo característico das pacientes anoréxicas é o de um pensamento egocêntrico, concreto e dicotômico, estilo “tudo ou nada” – extremos emocionais, pois não existe lugar para os pontos ou situações intermediárias. Esse comportamento, visão e conhecimento do mundo e de si mesmo aparece em todas as suas atividades, não apenas nas alimentares e atividades físicas.

•  Segundo Herscovii & Bay, todos os anoréxicos coincidem num ponto: a esbelteza é o ponto fundamental para sua sensação de bem-estar e sua auto-estima tem como valor o peso.

•  No entendimento de alguns autores, a família tem participação no desenvolvimento e/ou manutenção da anorexia, apesar dessa mesma família ver a filha como dócil, obediente, muito dedicada e ótima aluna. O que parece inicialmente, é apenas uma máscara, e com a evolução do problema, a desnutrição acarreta diminuição do hiperinvestimento, principalmente escolar. Geralmente a família tem pouco acesso aos problemas e conflitos reais da pessoa que sofre de anorexia, pois se apresenta de forma sutil e bem mascarada. Muitas vezes a família demora em entender e compreender o comportamento da filha, confundindo, muitas vezes, momentos de profunda tristeza com abalos de períodos pré-menstruais, pois “muitas vezes as pacientes com anorexia nervosa não tem menstruação, e quase sempre apresentam problemas e distúrbios nesse setor ”.

•  Embora não exista uma família tipicamente anoréxica, alguns padrões distintos de relacionamentos perturbados podem ser encontrados, como: pais superprotetores, muito ambiciosos, preocupados com o êxito e aparências externas. Alianças encobertas entre membros da família, alternância de culpabilidade, falha de resolução de conflitos, distorções na comunicação, confusão de papéis entre os membros da família, ausência de limites individuais e a falta de um senso de identidade pessoal separada da matriz familiar. Portanto, há certas características da anoréxica decorrentes da influência familiar. Ex. falta de identidade.

* A anoréxica precisa de motivações externas para sentir-se viva. Precisa estar fazendo sempre alguma coisa, pois se identifica por demais com as coisas que faz. Aqui há, na maioria das vezes, o fracasso dos pais em não conseguir favorecer a expressão e construção da identidade dos filhos. Ao mesmo tempo em que os pais querem proteger, acabam inibindo uma construção mais autêntica e autônoma dos filhos em geral. Além disso, constata-se uma falta de limites à pessoa anoréxica, ela não sabe dos limites territoriais de seu próprio corpo e onde começa o corpo do outro. Ela tem uma incrível facilidade de se confundir com o outro, justamente pela falta de autonomia que é uma característica fundamental da anoréxica. Ela se prende na sensação da não realização das expectativas dos pais. Há um desgaste de energia desnecessário, pois nada pode frustrar as expectativas dos pais em relação aos comportamentos e caprichos da filha. Ela tem que ser melhor ou nota dez em tudo, a perfeição de ser e tudo fazer. É por essa razão quer a maioria das anoréxicas sofrem de baixa auto-estima, pois cria ou desenvolve dentro de si um estigma/ uma autopercepção de não ser o suficientemente bom, causando uma sensação paralisante de ineficácia.

* Podemos ainda observar, que muitas vezes a anoréxica faz questão de manter-se nessa patologia, pois com isso legitima sua necessidade de dependência, afastando a possibilidade de conquistar e construir sua identidade e autonomia, mantendo a atenção da família voltada com quase exclusividade para ela. Essa característica é muito forte na anoréxica, pois é uma pessoa muito vulnerável à comentários externos e necessita de constante aprovação dos outros. Ela tem uma estrutura efeito esponja, absorve tudo, mas não consegue lidar com isso.

* Clientes anoréxicas apresentam dificuldades para terapia em grupo, pois a mesma pode aumentar a tensão, ao invés de aliviar. A pessoa anoréxica costuma permanecer retraída, ansiosa, rígida, preocupada com o peso e a comida e tem grande dificuldades em expressar seus sentimentos. Mesmo quando parece ser socialmente competente está tão limitada a sua capacidade de estabelecer relações sociais significativas, que, com freqüência, não pode se beneficiar do grupo. A coletividade para a anoréxica serve tão somente para ela prestar seus serviços e seus atendimentos, mostrar-se solidária e com isso forjar situações que despistam seu transtorno alimentar.

 

Caso clínico de Anorexia Nervosa - Aline.

 

Histórico do caso:

Primeira filha de 4 irmãos, de um casal que casou por causa dela. Gravidez imprevista e indesejada.

Progenitores submetidos a regras morais muito conservadores e rígidos do ponto de vista do exercício da sexualidade. Os dois pertencentes a famílias tradicionais do local (cidade do interior).

Mãe: vinda de uma família abastada, mas que perde sua fortuna;

Pai: funcionário público com um emprego modesto;

Mãe: com uma formação cultural e universitária;

Pai: com baixo nível de instrução – 2º grau de nível técnico;

A mãe desempenha no matrimônio o papel de quem sabe o que deve ser feito, ao passo que o pai exerce uma posição de subordinação economicamente e culturalmente.

A esperança do casal – construir um laço amoroso no percurso do próprio desdobramento do matrimônio, era essa a esperança deles.

Essa menina nasceu nessas condições de origem: sua presença faz surgir uma prolongada guerra e confrontos entre os pais acerca de quem essa pequena mulher seguiria: os passos sociais relativos à tradição materna ou paterna.

A mãe ordena a vida dessa criança. O pai é excluído. Na sessão a cliente fala: “não precisa chamar meu pai, ele é um idiota”.

A menina era constantemente deixada aos cuidados da avó materna. Nunca na avó paterna porque corria o risco, segundo a mãe, de se tornar uma grossa.

O pai é culpabilizado pela gravidez, pela infelicidade da família. Aline era o chodó da mãe.

Aos 12 anos Aline pára de comer. Fica com 29 kgs. Com um ano e meio recusava comida: cuspia fora, cuspia para capturar a atenção da mãe, mas o gesto de Aline foi ineficaz. A mãe nem percebeu que Aline botou a comida fora. Com uma m ao a mãe dava a comida e com a outra mexia numa panela.

Dois outros episódios levaram Aline a 22 ou 23 kg .

O pai totalmente submisso à esposa. Não tinha vez nem voto. Era um covarde. Se curvava diante da mãe.

Perfil de Aline:

Vinda de uma gravidez indesejada, mal amada. Foi a 1ª das 4 filhas e era a preferida da mãe.

O sintoma da filha (não comer) tinha papel central de esconder o conflito subjacente: a relação sem amor entre o pai e a mãe e a manutenção da harmonia familiar pela ausência do pai (cuidando da avó paterna..). A questão que se levanta diante do perfil e histórico de Aline é a seguinte: como Aline poderia garantir o amor, o desejo entre os pais?

Estava colada à mãe, totalmente à serviço dela, sem levar em conta seus desejos, necessidades e sentimentos. Totalmente sem identidade, sem autonomia, totalmente à mercê do desejo da mãe. A única coisa que Aline deseja é que a mãe se opõe ao balé.

Tratamento Sistêmico:

Mas o que será que é necessário a anoréxica para criar um novo modo alternativo para a sua vida ser mais atrativo e mais fácil de ser vivida? Evidentemente que muitas coisas devem mudar para que uma anoréxica possa desenvolver uma mentalidade e um comportamento mais saudável e eficaz para viver sua vida mais harmonicamente.

 

1º passo: Com Aline :

•  Trabalhar na terapia sua responsabilidade com sua própria vida (desejos, necessidades e sentimentos individuais etc) e não com a dos pais;

•  Que cabe aos pais a resolução de seus conflitos e que o único desejo que ela tem que dar conta é do seu: que só pode garantir seu desejo com relação a outro homem e não ser chamada para garantir o desejo entre os pais;

•  Trabalhar sua identidade, sua autonomia, seus desejos (de fazer balé) e em 1º lugar.

 

Perfil do pai de Aline.

 

Desqualificado no meio familiar: idiota, covarde...

Posição social e econômica inferior à sua mulher;

Culpado pela gravidez e infelicidade da família;

Totalmente submisso à esposa: não tinha voz nem voto. Tinha de curvar-se diante de tudo.

2º passo : Tratamento Sistêmico com o pai de Aline

O pai teve que adquirir a capacidade de se fazer reconhecer no âmbito familiar como pai e não como parceiro das filhas. Foi estimulado a estudar novamente, retomar seus estudos técnicos. Com isto teve ascensão no emprego, melhorou economicamente, se reposicionou diante da mulher e se revalorizou diante das filhas e dele mesmo.

 

Perfil da mãe de Aline

 

Superior ao marido social, cultural e economicamente;

Muito preocupada com o êxito e a aparência externa;

Desqualificava o pai diante das filhas, culpando-o pela infelicidade da família;

Incapaz de resolver seu conflito conjugal com o marido fazendo uma aliança com a filha contra o pai. Isto acarretou uma confusão de papéis entre os membros da família;

Era dominadora: não respeitava os limites individuais;

Fazia distorção na comunicação (por ex: dizia às filhas que não tinha relações sexuais com o pai, que o pai haveria imposto sua 1ª relação e que não desejou a gravidez...)

 

3º passo – Tratamento Sistêmico com a mãe de Aline

 

•  A mãe foi trabalhada no sentido de ela tomar consciência de seu papel como esposa e mãe;

•  Que ela também é responsável por sua vida e pelas escolhas que fez (de homem, de transa...);

•  Que filho é filho e que também tem o direito de escolher e viver autonomamente;

•  Que problemas conjugais devem ser resolvidos com marido e não com os filhos;

•  Que marido e mulher têm seus papéis específicos e que os papéis dos filhos são outros;

•  Que ninguém é superior a ninguém e que os limites de cada um devem ser respeitados. Não é a questão social que estabelece a questão da superioridade, e sim o ser;

•  Finalmente também foram trabalhadas a importância da comunicação na família e a veracidade dos fatos.

Percebe-se que diante desses exemplos de comportamentos e perfis diferentes a necessidade de preservar e garantir o jeito de ser e compreender o mundo de cada individualidade. Não podemos transgredir as fronteiras das individualidades e singularidades, pois senão estaremos fazendo inferências errôneas na identidade de cada ser. Se cada um é um, um deverá sempre ser. Eis aí o grande desafio de nosso trabalho terapêutico e de auxiliadores àqueles que estão em conflitos mentais, corporais e espirituais, para que também estes, possam viver mais harmonicamente e felizes.

2 Padrão de Funcionamento dos Bulímicos e Proposta Sistêmica de Tratamento.

Os bulímicos têm episódios de verdadeiros empanturramentos (binge eating) , orgias alimentares, nas quais os clientes só cessam a ingestão por mal-estar físico, com a chegada de outra pessoa ou por não haver mais alimentos. Comem em um período limitado de tempo ( dentro de um período de 2hs, por ex) uma quantidade de alimentos que é claramente maior do que a maioria das pessoas comeria durante um período de tempo semelhante, em circunstâncias semelhantes.

Tem sentimento de falta de controle sobre o comportamento alimentar durante tais episódios. Isto é: um sentimento de que não consegue parar de comer ou controlar o tipo ou a quantidade de alimento.

Empenham-se em atos compensatórios, inadequados para prevenir o ganho de peso, tais como: vômitos auto-induzidos; uso inadequado de laxantes, diuréticos, enemas e outros medicamentos; dieta restritiva, jejum ou exercícios excessivos.

Os episódios de binge-eating e comportamentos compensatórios inadequados ocorrem em média duas vezes por semana.

A auto-avaliação é inadequadamente influenciada pelo peso e formato corporal.

A comida, para os bulímicos, vem sempre em primeiro plano e este hábito de comer compulsivamente e depois vomitar é secreto. Nos seus ataques de compulsão alimentar os clientes condenam-se a si mesmos e de forma alguma são solidários à sua ação. Tem comportamentos confusos e ambíguos. Consomem muita energia no círculo vicioso de devorar e provocar o vômito. E nesse comer obsessivamente e provocar o vômito à pessoa parece não ter mais tempo. Por conseqüência, toda miséria de suas vidas, vazio existencial e insatisfação, tornam-se inconscientes.

Os autores concordam de que normalmente come-se compulsivamente em quase toda situação de fundo emocional, quando as coisas vão bem e quando vão mal. Tanto na depressão quanto na euforia. Por alegria antecipada ou por tensão. Nos momentos de estresse ou de expectativa.

Há concordância entre os autores de que os bulímicos em sua grande maioria têm um medo irracional da solidão e que os momentos de inatividade normalmente são remediados com a comida.

Nos relacionamentos, quando o parceiro se distancia predomina o medo de perde-lo ou de não recebe mais segurança e proteção (desejo de um apego excessivo). Mas se o parceiro quer mais proximidade, a mulher entra em pânico e cresce o medo com relação às expectativas do parceiro (desejo de fugir). As bulímicas são na maioria das vezes, meninas não desejadas e não amadas e tornam-se especiais e prestativas para conseguir um pouco de atenção e reconhecimento da família.

Outra característica do funcionamento bulímico é a “síndrome da ajuda”. O bulímico ajuda para fugir às próprias necessidades não atendidas, tornam-se incansáveis prestadoras de favores e ajuda aos outros. Enquanto estiver voltado ao outro consegue camuflar a necessidade de olhar para si mesma.

O mais interessante que podemos perceber é que a maioria dos bulímicos estão dentro do peso normal, mas pode estar tanto acima como abaixo deste.

A vida dos clientes bulímicos gira em torno de pensamentos e comportamentos associados à comida e a beleza. Os ataques aumentam o pavor mórbido de engordar e fazem com que os bulímicos também coloquem para si mesmos um limiar de peso abaixo do que seria saudável.

Freqüentemente tem vergonha de seu corpo, evitando expô-lo á observação dos demais. Quando estão acima do peso, usam roupas largas e evitam se olhar no espelho. Alguns se medem compulsivamente com fita métrica e experimentam com freqüência suas roupas para ver se houve aumento de medida. Muitos deles chegam a isolar-se de relações, evitando reuniões sociais ou viagens quando não se sentem em condições de preencher tais requisitos. Além desse isolamento também está muito presente na maioria dos anoréxicos, principalmente, após a ingestão de uma quantidade exagerada de alimentos, a depressão.

Com o passar do tempo, no entanto, os sentimentos de auto aversão, culpa, humilhação e fracasso, por se verem aprisionados neste círculo vicioso, tornam-se insuportáveis. Não admitem diante da terapeuta que comem compulsivamente.

Nos episódios compulsivos dos bulímicos, que duram em média pouco mais de uma hora, podendo variar entre 15 minutos e oito horas, os bulímicos ingerem de duas a cinco mil calorias e em casos raros, podem até alcançar até quinze mil calorias. Dão preferência a alimentos fáceis de engolir e regurgitar, em geral altamente calóricos, como sorvetes, chocolates, balas, doces, bolo, biscoitos, leite condensado, pipocas, salgadinhos e pizzas. O processo é muito rápido, apenas engolindo os alimentos, sem ao menos saboreá-los.

Alguns clientes não chegam a se engajar em manobras purgativas (bulimia não purgativa), mas alternam dietas muito restritivas ou jejuns aos episódios bulímicos. Além disso, também se exercitam vigorosamente por horas a fio. Os indivíduos bulímicos podem apresentar dificuldade com o controle de impulsos como: abuso ou dependência de medicamentos, cleptomania (roubo de alimentos), tricotilomania (arrancar cabelos), agressão corporal, a automutilação e suicídio.

Segundo análise de alguns autores sistêmicos, os bulímicos apresentam uma estrutura familiar disfuncional entre seus membros: pais não levam muito em conta necessidades e desejos da criança; os filhos não fazem suas escolhas, não desenvolvem sua autonomia, não tem nenhuma privacidade.

Os dependentes de compulsão alimentar são mestres em reprimir seus sentimentos e frágeis para assumir a responsabilidade pela própria vida, em especial pelo processo de cura. A decisão de provocar o vômito é um outro modo de assumir a responsabilidade pelo próprio comportamento, pelo menos ao que diz respeito a auto-indução.

Também para muitos dependentes da compulsão alimentar é difícil receber ajuda, principalmente porque não conseguem revelar suas fraquezas nem querem demonstrar que precisam de ajuda. E então, sentem-se em completo desespero e abandono e tentam o suicídio. O suicido pode ser uma maneira de amenizar o sofrimento, um modo de defender e gritar por socorro. O sofrimento dessas pessoas é enorme, mas na medida do possível velado. A pessoa abandona-se a si mesma e quando é colocada frente a frente com os seus conflitos e problemas podem entrar em colapso total e buscar o suicídio. Elas não conseguem lidar de modo diferente com suas necessidades e com a vida: não tem voz própria e espaço para serem ouvidas. Não tem força para lutar contra todos aqueles para os quais elas eram colaboradoras, parceiras, mães, filhas e namoradas – sempre altruístas.

São muito atormentadas pelo seu rígido bom senso, instabilidade e ansiedade. Dão muito pouca atenção às suas necessidades, não querem ofender ninguém e procuram corresponder a todas as expectativas dos outros, mas nenhuma expectativa delas próprias. E fazem isso tão bem que ninguém sabe quem realmente elas são. Nem mesmo elas. Com isso ninguém precisa satisfazer as expectativas delas, pois elas não têm nenhuma. Enfim as bulímicas, freqüentemente, não se consideram importantes para elas mesmas.

Não aprenderam a reagir de outra forma diante da vida que não seja se entupindo de comida. A preocupação constante gira em torno da comida e do peso.

O próprio dentista poderá detectar uma possível bulímica pela erosão do esmalte dentário, podendo levar à perda dos dentes.

No funcionamento bulímico são observados as mesmas características de funcionamento de um cliente com abuso sexual: distorções na imagem corporal; distorções na identidade; perda do autocontrole; distorções no funcionamento interpessoal da pessoa. Essas não se sentem no direito de se considerarem bonitas, pois têm uma representação de seu ser negativa, e muitas vezes, destrutiva.

Os bulímicos queixam-se com muita freqüência de que se sentem insensíveis, e a única vez em que se sentem sensibilizados, sentem isso com muita intensidade e que acarreta o vômito. A princípio ficam eufóricos, mas passado um momento essa experiência violenta-os deixando-os indiferentes e tristes. No funcionamento da personalidade bulímica são observados traços bem característicos: impulsividade, desorganização, preferência pelo novo, fácil desmotivação, extroversão, preocupação com modismos, mudanças no estado emocional, tais como depressão, tristeza, sentimentos de culpa e ódio por si mesma. São tomadas de obsessões, e muitas vezes, de promiscuidade.

 

Tratamento dos bulímicos

 

A bulimia nervosa por ser um transtorno que implica um compromisso orgânico e psicológico, requer a condução do tratamento por uma equipe interdisciplinar, integrada por um médico (a) endocrinologista um(a) nutricionista e um(a) terapeuta Relacional Sistêmica para o tratamento psicológico: com terapia familiar e individual ou somente individual ou grupal.

Conforme mencionamos o tratamento dos bulímicos transcorrerá primeiramente com a intervenção do médico(a) acompanhante que colherá o histórico clínico desse paciente, dentro da perspectiva de entendimento da arte médica. O diagnóstico médico é para levantar os problemas e condições físicas do paciente. O médico vai analisar peso, conduta alimentar, conduta a respeito das dietas, empanturramentos, purgantes e diuréticos, exercícios, outras atividades (passeios, contatos com amigos etc), imagem corporal, história do ciclo menstrual, tratamentos prévios, (tipos de tratamento e durabilidade).

Num segundo momento o controle do peso e dieta ficará por conta da nutricionista e num terceiro momento o tratamento psicológico com Terapeuta Relacional Sistêmico onde o cliente é analisado e visto em sua individualidade dentro de uma totalidade, personalizando e estudando o seu padrão de funcionamento, sua estrutura física e psicológica e mental.

Os clientes bulímicos requerem uma abordagem terapêutica diretiva que os contenha e uma proposta é a Relacional Sistêmica da Solange Rosset.

Veremos em seguida um caso clínico de bulimia – purgação da comida.

Anita, 33 anos – começou seu processo bulímico com 14 anos. Pesava 55 quilos e sentia-se gorda. Começou comendo menos e praticando esportes. Mãe, quando a filha se queixava de ter comido muito – brincando – deu lhe a idéia de praticar o vômito. Usou o método proposto pela mãe e funcionou. Às enfiava o dedo na boca umas 3 vezes ao dia mas morria de medo que alguém descobrisse seu segredo. Sempre falava em suicídio, mas quem acabou suicidando-se foi sua melhor amiga. Geralmente essas pessoas recorrem a dietas, exercícios físicos, laxantes, diuréticos, que na maioria das vezes não funcionam. Se não funcionam ou dão errados, por quê?: 1 Por que são dietas relâmpagos e autodestrutivo; 2 Por que as dietas são feitas de forma privativa, sigilosas e em segredo; 3 Por que as dietas são feitas em torno do controle.

O único sentimento desenvolvido pelos clientes bulímicos é a purgação da comida. Vomitar as escondidas é seu segredo. Suas reações na família não eram boas. Jamais se falava sobre problemas individuais. Alguns temas simplesmente eram considerados tabus. Tudo era jogado “embaixo do tapete”. Não existia privacidade. Todos se intrometiam em tudo, e as decisões individuais que não estavam de acordo com o “consenso oficial” não eram toleradas, mas ridicularizadas e desvalorizadas. Era inconstante, imprevisível e não podiam contar com ela. Tinha o hábito de ajudar todo mundo, pois tinha como característica fundamental em sua vida a “solidariedade”. Mas esta servia para acobertar todo conflito existente de suas ingestões vorazes de comidas. Além disso, não conseguia conviver com seu namorado, sentia raiva com a presença dele, mas por outro lado, sentia solidão e percebia que tinha mais ataques de compulsão nas situações emocionais.

 

Tratamento personalizado terapêutico

 

Procurou-se conduzir a terapia de Anita com objetivos terapêuticos não limitados a seu comportamento com relação à comida. Mas toda sua vida, seu modo de ver o mundo, seu modo de ser como pessoa, suas relações para consigo mesma e com os outros foram envolvidos nesta mudança. O trabalho terapêutico procurou fazer um resgate da totalidade da pessoa de Anita, perceber sua história e seus processos mentais, psicológicos, estruturais e sociais. Este trabalho pode ser dividido em 6 momentos distintos, mas interconectados. É um trabalho terapêutico multiprofissional e interdisciplinar, pois envolve vários profissionais em diversas áreas do conhecimento.

1º momento : recuperação nutricional, passando pelo controle da compulsão alimentar: romper com o poder dos ataques de compulsão tratando o vício e o vício é a falta de poder;

2º momento : Na terapia foram trabalhadas as imagens que tínhamos de mulheres. A cliente imaginou que tipo de mulher ela achava positivo. Chegou a conclusão de que para ela seria uma mulher que faz algo por si mesma, que tem uma vida independente.

Feedback da cliente: “ Comecei aos poucos fazer algo por mim mesma: mas franca na terapia e também fora da terapia, fui aprendendo a revelar algo – mesmo problemático – sobre mim. Eu simplesmente passei a ser mais solidária comigo mesma. Não tinha mais necessidade de me esconder tanto”.

Neste segundo momento a cliente aprendeu e percebeu o quanto era necessário expressar suas emoções bem como vive-las em sua intimidade e controlá-las quando necessário. As emoções devem ser vividas quando prazerosas e evitadas e controladas quando maléficas e prejudiciais para a nossa saúde mental, espiritual e física.

3º momento : Foi trabalhada sua identidade pessoal dentro da dinâmica familiar. Começa permitindo mais espaço e abertura dos outros na sua própria vida, mas começa também a construir seu espaço de ter vez e voz no espaço familiar tendo e afirmando sua opinião própria, nem que para isso tenha que lutar sozinha.

Também foi trabalhado seu modo de oferecer ajuda. Anita dava a impressão de que ajudava os outros com a intenção de conseguir apoio e segurança. Começou a perceber a inconstância e imprevisibilidade de confiança dos outros para com ela, ou seja, começou a dar se conta de sua existência neste mundo. Além disso, conscientizou-se que para vencer o vício da comida não era preciso vence-lo, pois aquilo que você resiste, persiste. Entrar em guerra com a comida dá a ela o poder porque ela se transforma numa questão moral. A comida deve ser um aliado saudável, essa é a consciência que deve perpassar o ato de comer a comida.

4º momento: aprendeu aspectos da convivência diária. Ela pressupõe que a pessoa possa se aceitar a ponto de ser solidária consigo própria e com suas características e necessidades. E com isto estar apta a fazer concessões ao parceiro. Além disso, pressupõe a capacidade de impor limites (para não ser subjugada).

5º momento: conduzida para novas experiências: entrou para faculdade e começou a participar de alguns movimentos sociais, mudou-se para um apartamento novo.

6º momento: elaboração da morte de sua amiga que fora atingida por um raio: “decidi viver”. Foi uma decisão profunda, não apenas mental. Chegou ao fundo do poço, antes de poder se reerguer. Procurou entender a si mesma e mudou o modo como passou a se relacionar com tudo na vida. Ficou claro para ela que essa vida era sua vida e não a vida dos outros.

Após essa investigação terapêutica a cliente consegue viver bem mais feliz e harmonicamente consigo mesma e com os outros. É por demais gratificante perceber a evolução de pessoas vivem assolados na crise e em conflitos existenciais e espirituais.

 

 

3 Comedores compulsivos (CCA)

 

 

Padrão de Funcionamento

Os comedores compulsivos apresentam freqüentes crises de “binge eating” (ataques de comer), durante as quais não podem parar de comer. Comem muito mais rápido do que o normal e às escondidas ou não deixam de comer o dia todo. Comem até se sentir desconfortavelmente empanturrados. Comem grandes quantidades de comida, mesmo sem fome. A quantidade de comida ingerida leva-os ao isolamento, pois aos olhos dos outros a quantidade é exageradamente fora do comum e de controle. Na verdade a pessoa não come, ela devora, ela quer possuir e dominar o alimento que está à sua frente. Como ela come de maneira desordenada, sem controle, a única coisa que ele consegue controlar é manter o domínio sobre o alimento até a ingestão completa do mesmo. Não tenhamos dúvidas que essa fúria não trará nenhum conforto a médio e longo prazo, pois geralmente o sentimento de culpa, a vergonha e a depressão são características fundamentais na vida dessas pessoas.

Na maioria dos casos, essas pessoas já tentaram inúmeras dietas e regimes de emagrecimento, onde não obtiveram nenhum sucesso. O insucesso nas dietas torna-os adoradores da comida, dos alimentos. Essas pessoas têm a comida como vício – “viciados em comida” – a força da ânsia de comer toma conta deles, fazem uso exagerado da comida a ponto de modificar o humor, com conseqüências negativas (perda de saúde, do emprego, das relações , posição social etc). Acoplado a esse uso exagerado uma capacidade bastante diminuída de exercer o livre arbítrio sobre esse uso, tornando-se incapaz de controlar a ingestão dos alimentos: “uma obsessão mental unida à compulsão física”. É evidente que o livre arbítrio está comprometido, pelo menos socialmente, pois a pessoa não pode ser como de fato gostaria de ser, obesa, comedora compulsiva e feliz. Há uma objetividade determinante na existência dessas pessoas, a comida. Nada é tão importante ou mais importante do que o ato de comer. Pensam constantemente em comida. Não só seus pensamentos os impelem a comer, mas quando comem ocorrem mudanças físicas que induzem a continuar a comer, sem parar, mesmo não estando com fome.

Os viciados em comida não sentem nenhuma satisfação após a comilança, somente desprazer, sendo que alguns deles podem apresentar o vício determinado geneticamente e neste caso eles têm menos neurotransmissores no cérebro (endorfinas) e essa deficiência faz com essas pessoas estejam sempre sentindo falta.

Os comedores compulsivos apresentam tolerância crescente, ou seja, à medida que o tempo passa, é preciso cada vez mais comida para uma sensação de bem estar menor. Quando mais se come, mais é preciso comer, sem, no entanto, obter um grau mais elevado de prazer, mas de desprazer. Por outro lado, eles têm também uma fome enorme antes de dormir, 3 ou 4 horas depois de um fartuoso jantar ou se levantam no meio da noite para atacar a geladeira. Isto em decorrência da privação que é o estado de desconforto que a pessoa sente na ausência de comida. Além de a fome ser geneticamente verificável, ela também passa a ser psicológica, pois é necessário que a mente cumpra as suas necessidades de comida.

Outro traço dos comedores compulsivo é serem solitário emocional. Seus sentimentos estão presos na comida como forma de compensarem seu vazio existencial. Sua energia é dirigida internamente só pela comida e exteriormente apenas pela necessidade de que outros lhe digam como eles deveriam se sentir, pensar ou parecer. Por dentro, há um vazio onde deveria estar seu self . Todos os seus relacionamentos são distorcidos. A comida está sempre entre eles e a relação. São pessoas que não tem uma autonomia e um modo de ser deles, um modo de construção existencial saudável e prazeroso. Não existe uma identidade fora da comida, pois para eles o que existe e é pode ser resumido na seguinte frase: “eu sou aquilo e o quanto eu como”. O papel existencial dessas pessoas passa pelo investimento e limitação da comida.

O vício é uma doença do isolamento. Em vez de se relacionar com outras pessoas, o viciado em comida evita o contato social para ter uma relação com a comida. O viciado não consegue se sentir próximo porque ele não está em contato consigo mesmo. Os viciados se sentem pouco à vontade quando tentam aproximar-se dos outros. Desligados pelo vicio em comida de sua própria autenticidade, eles se sentem falsos, frustrados em suas tentativas de manter intimidade com os demais. A única intimidade de amor que lhes é mais razoável é com a comida. A comida os atrai e encanta. Ela tem calor. É capaz de alimentar. Ela vive. O problema de manter um caso de amor com a comida é que ela nunca satisfaz, nenhuma quantidade será capaz de preencher o vazio. Essas pessoas se enredam numa verdadeira armadilha conceitual, pois quanto maior o consumo de alimentos maior é a sensação da insatisfação. É necessário desconstruir e conscientizar a pessoa dessa autodestruição, mostrando e despertando outras alternativas de amores fora da comida. È preciso povoar a mente com outros elementos que representam vida e sejam atrativas para essas pessoas, pois o mundo é muito mais do a comida.

Outra característica dos comedores compulsivos é que estão comendo mais do que a comida. Estão comendo sentimentos associados à comida. Quando aborrecidos procuram uma comida crocante. Se estão precisando de carinho materno irão atrás de uma coisa macia, doce e leitosa. Procuram a comida em vez de procurar aquilo que realmente desejam que é a intimidade com as pessoas. A comida é um subterfúgio dessas pessoas de suas paixões e conflitos. Os viciados em comida desenvolvem com freqüência desejos ligados à comida associados à primeira infância. Já quando adultos, quando sentem vontade de comer as comidas da infância, já não são simplesmente as comidas. Representa amor, carinho, segurança. Os comedores compusivos têm dificuldade para isolar a fonte desses sentimentos, particularmente os prazerosos, difíceis de aceitar e por isso distorcidos. No fundo, realmente não acreditam que merecem se sentir bem. Quando acontecem ficam preocupados em não conseguir gozar o bastante as boas sensações, ou descobrem a própria carência e ficam assustados. Porque suas vidas são tão cheias de tensão e crise, ao conseguirem sentir prazer, não sabem relaxar e gozar sem culpas. Toda vida e situações que causam prazer ou são prazerosas são motivadoras de sentimento de culpa. Os poucos sentimentos permitidos aos comedores compulsivos e o sentimento de culpa, que em última instância causa sofrimentos.

Outro traço dos comedores compulsivos é que eles conseguem facilmente dizer o que pensam, mas será difícil dizerem como se sentem. Depois de tantos anos negando suas emoções, a única forma de sentimento desenvolvida é a ingestão, negação ou purgação da comida. Uma crise de comilança é na realidade uma explosão de emoções. Porém, os viciados não conseguem experimentar os sentimentos expressando-os, mas tão somente ingerindo-os através dos alimentos. Os comedores compulsivos, na maioria das vezes, não comem comidas, mas emoções, sentimentos, medos etc. Eles os alimentam com a comida. Cedo ou tarde, a comida perde a capacidade de amortecer a dor dos sentimentos não expressados. Virar-se para comida como consolo é buscar sua identidade nas coisas externas, onde nunca poderá ser encontrada. Enfim, no funcionamento dessas pessoas o dado mais importante é o conteúdo, ou seja, o vazio que elas sentem e querem preencher com alguém ou alguma coisa fora delas mesmas na esperança de uma vida mais feliz e harmônica. A busca constante existencial dessas pessoas está voltada para a ingestão de comida e não aos prazeres do cotidiano em geral.

 

Caso clínico de Comedor compulsivo – o caso Anaíde

 

Tratava-se de uma menina pequena e magra que fora criada pela avó, no interior do Estado de Santa Catarina. Família simples e humilde. A criança cresceu nesse ambiente sem problemas e conflitos maiores.

Quando atingiu sua idade de 15 anos casou-se com um rapaz que ela conheceu próximo de sua casa. O casamento estava indo muito bem, e até os 18 anos pesava aproximadamente 50 kilos.

Na tentativa de engravidar procurou um médico para investigar se ela teria algum problema, pois não estava conseguindo engravidar. Foi então que o médico lhe receitou diversas vitaminas para serem consumidas por ela. Com essas vitaminas ela obteve um super apetite para comer e passou a se alimentar sem fim. Mas isso não lhe possibilitou engravidar, pois dos 50 kilos passou em pouco tempo para 116 kilos. As vitaminas causaram o apetite e o excesso de comida a obesidade, e conseqüentemente um distúrbio hormonal. É a partir disso que se desenvolveu uma alteração psicológica e física.

Esse desacordo da pessoa para com ela mesma causou-lhe uma profunda depressão e por duas vezes esteve internada num hospital psiquiátrico. Além disso, sua auto-estima caiu a zero. Com isso, um relacionamento de 16 anos desmoronou, pois não agüentava mais ouvir “você está gorda”.

A cliente em sua fala declara: “eu não sabia comer, não sabia mastigar, apenas engolir”.

Ela dizia que misturava todos os tipos de alimentos, pois a satisfação era única: “poder engolir e sentir-se cheia, estufada”.

“Eu não sentia prazer nas relações afetivas, apenas queria comer”. Eu sentia muita ansiedade.

A visão que ela tinha dela mesma era de uma gorda que não se satisfaz com nada, pois o gordo não tem fome, mas gula. Ela se escondia para poder comer, pois comia o que encontrava pela frente.

 

Tratamento Sistêmico

 

Após alguns encontros constatou-se no padrão de funcionamento de Anaíde que haveria grandes possibilidades de modificar esse funcionamento desse padrão comportamental.

Feito o histórico da pessoa, trabalhamos em vista de uma totalidade dessa pessoa, mostrando para ela que a auto-estima dela é a mola propulsora para sua nova forma de vida. Além disso, mostrou-se que o excesso de comida não a levaria para uma vida feliz, mas sempre mais infeliz. Trabalhamos a auto-estima a partir de filmes, possibilitando a ela sair de casa, uma vez que ela apresentava quadros depressivos constantes. Então se sugeriu a ela de ir ao cinema assistir o filme My Life , para possibilitar e causar um choque a ela no tocante a sua vida e na nova perspectiva que ela deveria criar.

Após essa primeira fase trabalhamos com ela a imagem corporal, uma nova reconstrução de si mesma, novas sensações foram possibilitadas, e um novo entendimento dela mesma brotou. Novas relações afetivas ela buscou e realizou. Novas convivências encontrou, novas amizades efetivou com pessoas do sexo masculino, que anteriormente eram impossíveis. Passou a ser mais sociável, aparecer em público e exercer sua função de secretária de maneira mais feliz e harmônica com ela mesma e com os outros. Dentro dessa perspectiva ocorreu a necessidade de uma reforma no guarda-roupa, pois as roupas não lhe serviam mais, estavam cada vez maiores e folgadas no corpo dela. E tudo isso ocorreu sem fazer dietas ou regimes, apenas no trabalho dessa conscientização dessa totalidade do ser e estar no mundo.

No último passo de nosso trabalho terapêutico procuramos um espaço interdisciplinar com uma profissional de nutrição para orientações alimentares saudáveis e na terapia sistêmica continuamos com a conscientização do propósito contínuo de ela buscar alternativas fora da comida. Foi a partir disso que passou a fazer exercícios matinais de caminhadas, alongamentos e ginástica rítmica na academia.

Hoje a vida de Anaíde está tranqüila e consegue conviver com seus estilos e necessidades de controle de comida, sua auto-estima está excelente e seu corpo está em sintonia com ela mesma.

 

Como e o que fazer para ajudar as pessoas que sofrem de transtornos alimentares?

Todo plano de emagrecimento que não remova os laços entre os sentimentos e a comida está fadada ao fracasso. Não é o que você come, mas o modo como e quanto comemos. É preciso degustar os alimentos e não devora-los. O vício da comida é uma doença do espírito humano e não pode ser curado exclusivamente por uma solução física, o que seria pôr um “ band-aid” sobre um ferimento profundo, enquanto por baixo do tratamento cosmético há um problema doendo e cheirando mal. Precisa ser limpo para sarar e, mesmo que doa, é a única forma de alcançar a cura. Cuidar de um ferimento profundo não é agradável, mas nem de longe é tão doloroso quanto deixa-lo sem tratamento. Reconhecer que está disfuncional permite dignidade é o direito de obter cuidados para uma coisa que não é culpa sua, afastando todas as idéias de transgressão, falta de controle e até a palavra dieta .

Um programa alimentar eficiente exige que se faça mudanças importantes não tanto nos hábitos alimentares, mas nas atitudes e comportamentos. Pode-se continuar viciada em comida até morrer, mas não ser prisioneira do corpo. Isto liberta a mente da obsessão (por comida) e permite criar uma vida feliz, cheia e rica para si mesma.

Acima e antes de qualquer tentativa de tratamento é necessário conhecer em profundidade a estrutura de funcionamento da pessoa que busca a nossa ajuda. É necessário entender o que a pessoa busca e para onde ela está caminhando existencialmente.

Compulsão e obsessão por magreza.

“As compulsões são comportamentos ou atividades mentais repetitivos, exercidos para diminuir desconforto, ansiedade ou tensão, muitas vezes em resposta às obsessões, mas sem conexão com a realidade”. p.186

“É um transtorno caracterizado por pensamentos obsessivos ou obsessões e compulsões. As obsessões são idéias, imagens ou impulsos que se intrometem no curso do pensamento, à revelia da vontade do indivíduo, escapam a seu controle e costumam levar a grande desconforto ou ansiedade. Seu conteúdo ou não faze sentido ou é inapropriado ou absurdo. Os indivíduos freqüentemente tentam suprimir, resistir ou ignorar as obsessões”. p.186.

No caso dessas características as anoréxicas apresentam-se tolerantes mascaradas, pois são rígidas em suas verdades, embora tenham alguns hábitos altruístas. Há na verdade um conjunto de conflitos e contradições no comportamento das anoréxicas.

A anoréxica tem medo quase de tudo: medo de mudar, medo de ter êxito, medo de ter uma vida autônoma, medo de encarar suas necessidade e desejos, atribui à gordura a culpa de seus fracassos, tem medo de ser bonita por causa das conseqüências sexuais que isso acarreta, tem medo de se questionar sobre seus reais conflitos, sobre sua vida e sobre sua própria pessoa.

Existe uma preocupação mórbida e irracional com o peso e a forma do corpo.

DETHLEFSEN & DAHLKE. A Doença como Caminho. p.139.

 

Idem, p.140.

A menstruação é outro dilema para as anoréxicas, pois de um lado, começar a menstruar significa que pode engravidar e isso causaria pânico, pois há uma rejeição nítida à maternidade, por outro lado, não menstruar é outro sinal de que algo não está funcionando bem no corpo, e portanto, motivo para medo.

DETHLEFSEN & DAHLKE. A Doença como Caminho. p.141.

DETHLEFSEN & DAHLKE. A Doença como Caminho. p.139.

Os viciados em comida dificilmente têm uma relação sexual estável com alguém, ou mesmo qualquer tipo de outras relações estáveis. Ex. relação de amizade.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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2 _______________ Comer Demais Não Resolve os Seus Problemas . São Paulo: Ed. Pensamento Ltda, l999.

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4 __________________ Viver, perder, ganhar. São Paulo: Ed. Best Seller, l993.

5 HERSCOVICI, Cecile Rausch, BAY, Luisa. Anorexia Nervosa e Bulimia . Porto Alegre: Artes Médicas, l997.

6 BALLONE, GJ. Transtornos Alimentares. in psiqweb, Internet – Revista em 2003. E.E: http: WWW.psiqweb.med.br/anorexia.html

7 Reductil, Obesidade: uma doença mundial . E.E.: http: www. Reductil.com.Br/obesidade/index.html

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9 DETHLEFSEN, Torwald, DAHLKE, Rüdiger. A Doença como Caminho . São Paulo: Ed. Pensamento, cultrix ltda...

10 CORDÁS, Taki, Athanassios et alii..Porto Alegre: Artmed, l998.

11 BUSSE, Salvador de Rosis, org. Anorexia, Bulemia e Obesidade . Barueri, SP: Manole, 2004.